Ondas se propagando na água como representação das consequências de uma escolha

As escolhas dos outros não precisam determinar as nossas

Ao longo da vida, somos atravessados por decisões que não tomamos. Algumas são pequenas e desaparecem rapidamente. Outras alteram relações, trajetórias e até a maneira como passamos a enxergar o mundo.

Alguém decide nos incluir ou excluir, reconhecer ou ignorar, abrir uma porta ou fechá-la. No ambiente profissional, uma liderança escolhe quem será promovido, um conselho aprova uma decisão que afetará pessoas que sequer participaram da discussão, uma organização muda sua estratégia, sócios rompem relações, famílias decidem como conduzir patrimônio e sucessão.

Em todos esses casos, alguém exerce o poder de decidir. Mas até onde vai esse poder?

Talvez uma das maiores ilusões de quem decide seja acreditar que, porque pode determinar uma ação, também será capaz de controlar tudo aquilo que acontecerá depois dela.

Não será.

Decisões não terminam quando são tomadas

Uma decisão pode ser registrada em ata, formalizada em contrato, comunicada em uma reunião ou simplesmente pronunciada em uma conversa. Do ponto de vista formal, o assunto pode estar encerrado. Na vida das pessoas atingidas por ela, talvez esteja apenas começando.

Isso acontece porque decisões não permanecem isoladas. Elas entram em sistemas, encontram pessoas, histórias, interesses, circunstâncias e outras decisões. Essa forma de observar relações, interdependências e consequências se aproxima do pensamento sistêmico. Provocam reações, adaptações e novas escolhas. Algumas consequências aparecem imediatamente e são facilmente identificáveis. Outras surgem muito tempo depois, quando quem iniciou o movimento já nem está olhando para ele.

É por isso que considero insuficiente avaliar uma decisão apenas pela intenção de quem a tomou.

A intenção importa. O resultado também. Mas existe algo entre os dois que frequentemente escapa à nossa análise: aquilo que a decisão coloca em movimento.

Uma pedra lançada na água toca primeiro um único ponto. As ondas, porém, não permanecem ali.

Com nossas escolhas acontece algo semelhante. Produzimos um impacto inicial, mas raramente conseguimos acompanhar todas as suas reverberações.

A ilusão de controlar o significado

Podemos excluir alguém de uma decisão, negar uma oportunidade ou restringir seu espaço. O que não conseguimos determinar é o significado que essa experiência terá para aquela pessoa, tampouco os caminhos que ela poderá construir a partir dali.

Uma porta fechada pode interromper uma trajetória ou provocar a construção de outra. Uma exclusão pode diminuir alguém ou levá-lo a descobrir recursos que ainda desconhecia. Uma decisão tomada para restringir possibilidades pode, com o tempo, produzir exatamente o contrário.

Isso não significa romantizar a adversidade. Há decisões ruins que causam danos reais. Há perdas que permanecem perdas, injustiças que não se tornam justas porque alguém conseguiu sobreviver a elas e consequências que simplesmente não deveriam ter existido.

Reconhecer isso é importante justamente para não cairmos na tentação de transformar todo sofrimento em uma conveniente história de superação.

Mas existe uma fronteira a partir da qual a decisão que veio de fora encontra uma decisão que passa a ser nossa: o que faremos com aquilo que aconteceu?

É nesse ponto que o poder muda de mãos.

Quando a escolha volta para nós

Existe uma reação bastante humana diante de determinadas experiências: devolver.

Responder à exclusão excluindo, à indiferença com indiferença, à deslealdade com deslealdade. Ou guardar o episódio até que uma futura posição de poder permita inverter os papéis.

Podemos compreender essa reação sem necessariamente escolhê-la.

Talvez uma das formas mais difíceis de autonomia seja conseguir separar duas perguntas que parecem semelhantes, mas não são:

O que fizeram comigo?

Quem eu quero ser diante do que fizeram comigo?

A primeira pergunta procura compreender o fato e não há razão para evitá-la. O passado não precisa ser reescrito para que possamos seguir adiante.

A segunda pergunta, porém, faz algo diferente: devolve a decisão para nossas mãos.

Isso não exige esquecer, justificar ou minimizar o que aconteceu. Também não pressupõe perdão, reconciliação ou permanência. Há situações em que preservar quem somos significará justamente estabelecer limites, afastar-se ou encerrar uma relação.

O ponto não está em permanecer ou partir. Está no critério utilizado para escolher.

Porque existe uma diferença importante entre reagir ao comportamento de alguém e permitir que esse comportamento se transforme, silenciosamente, no parâmetro do nosso.

A escolha do outro não precisa determinar a qualidade da nossa.

Nem toda herança é aquilo que recebemos

Quando falamos em herança, pensamos quase imediatamente em algo que passa de uma pessoa para outra: patrimônio, empresas, objetos, conhecimento, histórias.

Mas há outra dimensão de herança que me interessa mais.

Existe aquilo que deixamos para alguém e existe aquilo que deixamos em alguém.

Aquilo que deixamos para alguém pode ser contabilizado, transferido, dividido, administrado e até perdido. O que deixamos em alguém é muito menos controlável.

Uma decisão pode permanecer na memória de uma pessoa durante décadas. Um gesto pode modificar sua maneira de liderar. Uma injustiça pode fazê-la decidir que jamais exercerá poder daquela forma. Uma oportunidade recebida pode levá-la, anos depois, a abrir oportunidades para pessoas que sequer conhecemos.

E aqui surge uma contradição interessante: nem sempre o legado corresponde à intenção.

Às vezes, alguém deixa como legado justamente aquilo que outra pessoa decidiu não repetir.

Talvez seja uma das formas mais silenciosas pelas quais as experiências atravessam gerações, organizações e relações. O que recebemos não determina necessariamente aquilo que transmitiremos.

Entre uma coisa e outra existe escolha.

O alcance que não conseguimos medir

Estamos acostumados a avaliar decisões perguntando qual será o resultado, quanto custará, quais riscos estão envolvidos, quem ganha, quem perde e quais objetivos pretendemos alcançar.

São perguntas necessárias. Especialmente para quem lidera organizações, participa de conselhos ou ocupa posições nas quais suas escolhas alcançam muitas pessoas.

Mas talvez falte uma pergunta:

O que esta decisão pode colocar em movimento além daquilo que consigo enxergar agora?

Não teremos uma resposta completa. Seria ingenuidade imaginar o contrário.

Decidir significa escolher sem controlar todas as variáveis. Nenhuma metodologia elimina completamente a incerteza, assim como nenhuma análise consegue antecipar todas as consequências humanas de uma escolha.

Mas reconhecer essa limitação já modifica a maneira como decidimos.

Obriga-nos a ampliar o olhar para além do resultado imediato, considerar quem não está sentado à mesa, perceber impactos que não aparecem na planilha e admitir que uma decisão considerada encerrada por quem a tomou pode continuar acontecendo durante muito tempo na vida de quem foi atingido por ela.

Talvez responsabilidade seja também isso: compreender que nosso poder termina antes das consequências das nossas escolhas.

O que permanece

Há decisões que dizem muito sobre quem as tomou. Há respostas que dizem ainda mais sobre quem as recebeu.

Entre as duas existe um espaço que nem sempre percebemos imediatamente. É nele que podemos escolher reproduzir aquilo que recebemos ou interromper sua continuidade.

Não controlamos todas as decisões que nos atingirão ao longo da vida. Tampouco conseguiremos controlar tudo aquilo que nossas próprias decisões provocarão nos outros.

Mas podemos prestar mais atenção ao que colocamos em movimento.

E, diante daquilo que colocaram em movimento em nós, ainda podemos escolher o que seguirá adiante.

Não precisamos nos tornar consequência daquilo que fizeram conosco.

Porque o que deixamos para alguém pode desaparecer.

O que deixamos em alguém pode atravessar uma vida inteira.

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